O RELÓGIO DAS CULTURAS

O que é o tempo? A resposta varia, dependendo da sociedade

Atrase uma hora no Brasil e ninguém nem irá se importar muito. Mas, na Suíça, deixe alguém esperando mais que cinco ou dez minutos e terá muito a explicar. Em algumas culturas o tempo é elástico, em outras, monolítico. De fato, o modo como membros de uma cultura percebem e usam o tempo reflete as prioridades da sociedade e até sua visão do mundo.

Cientistas sociais registraram grande diferença no ritmo de vida em vários países e em como as sociedades percebem o tempo: se como uma flecha penetrando o futuro ou como uma roda em movimento, onde passado, presente e futuro giram sem parar. Algumas culturas combinam tempo e espaço: o conceito dos aborígenes australianos do “tempo de sonhos” abrange não só o mito da criação, mas também o método de selocalizar no campo. Mas algumas visões de tempo interessantes, como o conceito de ser aceitável uma pessoa poderosa manter alguém de status inferior esperando, parecem desconhecer diferenças culturais. Elas são universais.

O estudo de tempo e sociedade pode ser dividido em pragmático e cosmológico. Do ponto de vista prático, nos anos 50, o antropólogo Edward T. Hall escreveu que as regras de tempo social compõem uma “linguagem silenciosa” para determinada cultura. As regras nem sempre são explícitas, analisou ele, mas “subentendidas... Ou são cômodas e familiares, ou erradas e estranhas”.

Em 1955, ele descreveu na Scientific American como percepções diferentes de tempo podem levar a mal-entendidos entre pessoas de culturas diversas. “Um embaixador que espera um visitante estrangeiro mais que meia hora deve entender que se este último ‘mal murmura uma desculpa’ isto não é necessariamente um insulto”, exemplifica. “O sistema de tempo no país estrangeiro pode ser composto de unidades básicas diferentes, então o visitante não está tão atrasado quanto parece. Deve-se conhecer o sistema de tempo do país, para saber a partir de que ponto as desculpas são realmente necessárias... Culturas diferentes atribuem valores diversos para as unidades de tempo.”

A maioria das culturas do mundo agora usa relógios e calendários, unindo a maior parte do globo no mesmo ritmo geral de tempo. Mas isso não significa que todos acertem o mesmo passo. Algumas pessoas se estressam com o ritmo da vida moderna e o combatem com o movimento “slow food” enquanto em outras sociedades as pessoas sentem pouca pressão no gerenciamento do tempo.

“Uma das curiosidades do estudo de tempo está no fato de ele ser uma janela para a cultura”, avalia Robert V. Levine, psicólogo social na California State University em Fresno. “É possível obter respostas sobre valores e crenças culturais: uma boa ideia do que importa para as pessoas.”

Levine e seus colegas fizeram estudos do “ritmo de vida” em 31 países. Em A geography of time, publicado pela primeira vez em 1997, Levine descreve a classificação dos países usando três medidas: velocidade para andar nas calçadas urbanas, rapidez de um funcionário do correio em vender um simples selo e a precisão dos relógios públicos. Baseado nessas curiosas variáveis ele concluiu que os cinco países mais rápidos são Suíça, Irlanda, Alemanha, Japão e Itália e os cinco mais lentos, Síria, El Salvador, Brasil, Indonésia e México. Os Estados Unidos ocupam a 16º lugar, próximo ao mediano.
Kevin K. Birth, antropólogo no Queens College, examinou a percepção de tempo em Trinidad. Seu livro, Any time is Trinidad time: social meanings and temporal consciousness, de 1999, se refere à desculpa comum dada para atrasos. Naquele país, observa Birth, “se você marcar um encontro para as 18h00, as pessoas aparecem às 18h45 ou 19h00 e dizem: ‘Qualquer hora é hora em Trinidad’”. Quando se trata de negócios, porém, esse enfoque informal do tempo só se aplica para os poderosos. Um chefe pode chegar tarde e usar o refrão, mas é esperado que subalternos sejam mais pontuais. Para eles, “horário é horário”. Birth acrescenta que a paridade tempo-poder existe em muitas outras culturas.

A natureza obscura do tempo pode dificultar a tarefa dos antropólogos e psicólogos sociais. “Não se pode simplesmente chegar numa sociedade, se aproximar de alguém e perguntar: ‘Qual é a sua noção de tempo?’”, adverte Birth. “As pessoas não terão resposta. Então, tente outros meios para descobrir isso.”

Birth tentou descobrir o valor do tempo para os trinitinos, explorando a proximidade entre o tempo e o dinheiro na sociedade. Avaliou populações rurais e descobriu que fazendeiros, cujos dias eram ditados por eventos naturais, como o nascer do sol, não reconheciam o provérbio “tempo é dinheiro”, “economizar o tempo” ou “gerenciar o tempo”, embora tivessem TV por satélite e estivessem familiarizados com a cultura popular ocidental. Já os alfaiates das mesmas áreas tinham essa noção. Birth concluiu que o trabalho assalariado alterou o ponto de vista dos alfaiates. “As ideias de associar tempo a dinheiro não são globais”, esclareceu ele, “mas atreladas à profissão e à pessoa que a exerce.”

A forma de lidar com o tempo no cotidiano não está relacionada ao conceito de tempo como entidade abstrata. “Muitas vezes há uma separação entre como uma cultura encara a mitologia do tempo e como as pessoas pensam a respeito do tempo em suas vidas,” relata Birth. “Não pensamos sobre as teorias de Stephen Hawking do mesmo modo que sobre a rotina diária.”

Algumas culturas não distinguem claramente passado do presente e do futuro. Os aborígenes australianos, por exemplo, acreditam que seus ancestrais rastejaram para fora da Terra na época do tempo dos sonhos. Os ancestrais “cantaram” o mundo para criá-lo, nomeando cada característica e ser vivo, o que os fez existir. Mesmo hoje uma entidade não existe a menos que um aborígene a “cante”.

Ziauddin Sardar, autor e crítico britânico muçulmano, escreveu sobre o tempo e culturas islâmicas, especialmente a seita fundamentalista wahhabista. Os muçulmanos “sempre carregam o passado consigo”, afirma Sardar, editor da revista Futures e professor convidado de estudos pós-coloniais da City University, em Londres. “No Islã o tempo é uma tapeçaria que incorpora o passado, o presente e o futuro. O passado é sempre presente.” Os seguidores do wahhabismo, muito difundido na Arábia Saudita e entre os membros da Al Qaeda, buscam recriar os dias idílicos da vida do profeta Maomé. “A dimensão mundana do futuro foi suprimida” por eles, segundo Sardar. “Eles romancearam uma visão particular do passado. Tudo o que fazem é tentar repetir o passado.”

Sardar afirma que o Ocidente “colonizou” o tempo ao divulgar a expectativa de que a vida deveria se tornar melhor conforme o tempo passa: “Ao colonizar o tempo, se coloniza o futuro. Acreditando- se que o tempo é uma flecha, então o futuro seria o progresso, seguindo uma direção. Mas pessoas diferentes podem desejar futuros diferentes.”
Scientific American
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ATO DE CHORAR FORTALECE AS RELAÇÕES HUMANAS.

Sintoma de dor física e estresse, o choro também tem seu lado positivo. Quem já se sentiu aliviado após permitir que as lágrimas rolassem pelo rosto sabe disso. Agora, evidências coletadas pelo psicólogo evolucionista Oren Hasson, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, durante pesquisa feita para sua tese de doutorado, mostram cientificamente que o ato de chorar traz benefícios emocionais e pode fortalecer as relações interpessoais.

“O choro é um comportamento exclusivamente humano e altamente evoluído”, salienta Hasson, autor do artigo publicado na revista Evolutionary Psychology. “Minha análise sugere que as lágrimas servem para baixar as defesas, demonstrar submissão e pedir ajuda em momentos estratégicos, bem como para demonstrar afeto, o que favorece a coesão do grupo”, afirma. Ou seja, é muito possível que, ao longo da evolução, nossos antepassados que se permitiam chorar tenham obtido vantagens como abrigo, proteção e, em última instância, mais possibilidades de sobrevivência. 

O pesquisador investigou o uso das lágrimas em diversas circunstâncias sociais, que envolviam emoções como alegria, tristeza, luto etc. Ele observou que, de forma geral, o choro foi usado (muitas vezes de forma não planejada e até inconsciente) para despertar a empatia (a fim de obter assistência estratégica) em pessoas que não faziam parte do grupo opositor.
OREN HASSON, Universidade de Tel Aviv, Israel.
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MIA COUTO - Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
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QUANDO MENTIMOS MAIS? - Michael Shermer

“Mudando para a Geico [empresa americana de seguros] você realmente economiza 15% ou mais em seguros automotivos? Abraham Lincoln foi sincero?”. Assim pergunta o comercial da Geico, seguido por uma gravação em falso vintage de Mary Lincoln perguntando a seu marido: “Esse vestido deixa meus quadris grandes?”. O sincero Abe examina o vestido, então hesita e, com seu indicador e polegar separados por um centímetro, finalmente murmura “Talvez um pouquinho”, fazendo sua mulher sair da sala, furiosa.

O humor funciona porque nós reconhecemos a pergunta como um pedido de elogio disfarçado, ou como um teste de nosso amor e fidelidade. De acordo com o livro Lying (Four Elephants Press, sem edição em português), publicado em 2013 pelo neurocientista Sam Harris, nós deveríamos dizer a verdade mesmo nessa situação: “Ao mentir, nós negamos a nossos amigos o acesso à realidade – e a ignorância resultante disso frequentemente pode prejudicá-los de maneiras que não previmos.

Nossos amigos podem agir com base em nossa falsidade, ou fracassar em problemas que poderiam ter sido resolvidos com base em boas informações”. Talvez o alfaiate de Mary fosse incompetente, ou talvez Mary realmente precisasse perder peso, o que a tornaria mais saudável e feliz. Além disso, de acordo com Harris, mentiras inocentes frequentemente levam a mentiras perigosas: “Em pouco tempo você poderá se comportar como a maioria das pessoas faz, sem muito esforço: obscurecendo a verdade, ou até mentindo diretamente, sem sequer pensar sobre isso. O preço é muito alto”. Uma solução prática é pensar em uma maneira de dizer a verdade com sensibilidade.

Como Harris aponta, pesquisas mostram que “todas as formas de mentira – incluindo mentiras inocentes para poupar os sentimentos alheios – são associadas com relacionamentos de baixa qualidade”.   

A maioria das pessoas não conta mentiras hitlerianas, mas quase todos nós obscurecemos a verdade apenas o suficiente para fazer os outros, ou nós mesmos, se sentirem melhor. Quanto nós mentimos? Cerca de 10%, de acordo com o economista comportamental Dan Arielyem seu livro A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade (Campus Elsevier, 2012).

Em um experimento em que os participantes resolvem quantas matrizes conseguirem em um período limitado de tempo, e são pagos por cada resposta correta, os que entregaram seus resultados ao experimentador na sala obtiveram uma média de quatro em 20. Na segunda condição, em que participantes contavam suas respostas corretas, destruíam a folha de respostas e diziam ao experimentador em outra sala quantas tinham acertado, a média foi de seis em 20 – um aumento de 10%. E o efeito persistiu mesmo quando a quantia paga por resposta correta foi aumentada de 25 centavos para 50, e depois para US$1, US$2 e até US$5. De maneira reveladora, quando o valor atingiu US$10 por resposta correta, a quantidade de mentiras diminuiu.

A mentira, de acordo com Ariely, não é resultado de uma análise de custo-benefício. Ao contrário, é uma forma de auto-ilusão em que pequenas mentiras nos permitem melhorar nossa auto-imagem e ainda manter a percepção de sermos pessoas honestas. Mentiras grandes não são assim.

Os psicólogos Shaul Shalvi, Ori Eldar e Yoella Bereby-Meyer testaram a hipótese de que pessoas têm uma tendência maior a mentir quando podem justificar a mentira para si mesmas. O resultado foi um artigo intitulado “Honesty Requires Time (and Lack of Justifications)” [A Sinceridade Exige Tempo (E Falta de Desculpas)], publicado em 2013 em Psychological Science.

Os participantes rolaram um dado três vezes em uma situação que impedia o experimentador de ver o resultado, e foram instruídos a relatar o número obtido na primeira rolagem. (Quanto maior o número, mais dinheiro eles recebiam). Ver o resultado da segunda e da terceira rolagem dava aos participantes a oportunidade de justificar o relato de apenas o maior dos três números; como aquele número realmente tinha aparecido, era uma mentira justificada.

Alguns participantes tiveram que relatar sua resposta em 20 segundos, enquanto outros não tinham limite de tempo. Ainda que os dois grupos tenham mentido, os participantes que receberam menos tempo tinham uma tendência maior a fazê-lo. Em outro experimento, participantes rolaram o dado uma vez e relataram o resultado. Os que tinham pouco tempo, mentiam; os que tinham tempo para pensar, diziam a verdade. Os dois experimentos sugerem que pessoas têm uma tendência maior a mentir quando o tempo é curto mas, quando o tempo não é problema, elas só mentem quando têm justificativa para fazê-lo.

Talvez Mary não devesse ter dado tanto tempo para Abe ponderar sua resposta.
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UM OUTRO MUNDO – Edmir Silveira


Enquanto a noite amanhecia lenta
Nossos corpos se reconheceram quentes
Revelando mundos
 Que a gente não entende

Tanto, de novo, de repente
Invadindo, se infiltrando, envolvendo
Renascendo dentro de um mundo à parte
Construído pela arte que o coração sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha
Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente
O mundo além do mundo
A gente além da gente
Brotando da felicidade que o sonho não sente

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NANDO REIS - All Star



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FLÁVIO GIKOVATE - Confiar um no outro é essencial para um amor maduro.

Amar implica depender, estar na mão da outra pessoa. Por isso, amar alguém que não nos transmite confiança é ser irresponsável para consigo mesmo.

Poucos são os casais que vivem em concórdia, num relacionamento que crie condições para que ambos cresçam emocional e intelectualmente. Mas, porque existem alguns casais que vivem em harmonia, devemos nos empenhar para também fazermos parte dessa minoria privilegiada.

Hoje quero me dedicar a um aspecto essencial das boas relações amorosas que é o desenvolvimento da confiança recíproca.

Amar implica depender, estar na mão de outra pessoa. Ela tem, mais do que ninguém, o poder de nos fazer sofrer. Basta querer nos magoar que conseguirá isso, com uma simples palavra ou gesto. Se quiser nos fazer sentir insegurança, não terá problema algum.
Fica mais do que evidente que, quando uma pessoa ama alguém que não se empenha em despertar a sensação de confiança e de lealdade, ela irá padecer muito. Irá se sentir permanentemente ameaçada, terá ciúme de tudo e de todos.

Amar alguém que não nos passa confiança é, pois, uma irresponsabilidade para consigo mesmo. É uma ousadia, uma ingenuidade e uma grande demonstração de imaturidade emocional – ou sinal de que se tem satisfação com o sofrimento.

Em geral, as pessoas se colocam nessa condição em virtude de terem se encantado com alguém que, de fato, não dá sinais de confiabilidade. Aceitam essa atitude egoísta do amado imaginando que seja uma fase, um período doloroso que irá passar com o tempo. Fazem tudo para demonstrar o seu amor, para cativar o outro e esperam que isso faça com que, finalmente, ele se renda, e também se entregue de corpo e alma à relação afetiva.

Acaba se compondo uma espécie de desafio, em que aquele que não é confiável percebe que recebe mais atenções e carinho exatamente por agir dessa forma. Com isso se perpetua a situação e me parece bobagem achar que o futuro será diferente do presente. Afinal de contas, aquele que não se entrega ao amor, acaba sendo altamente recompensado por isso e não terá nenhuma tendência para alterar sua atitude.

Quando a “mágica” do encantamento amoroso não vem acompanhada da “mágica” da confiança, a pessoa está posta numa situação muito difícil, na qual o sofrimento e insegurança serão as emoções mais constantes.

E essa “mágica” da confiança de onde ela vem? De vários fatores, sendo que o primeiro deles depende do comportamento da pessoa amada.

Não é possível confiarmos numa pessoa que mente, a não ser que queiramos nos iludir e tentemos achar desculpas para não perder o encantamento por ela.
Não é possível confiarmos em pessoas cujo comportamento não está de acordo com suas palavras e suas afirmações. Aliás, quando o discurso não combina com as atitudes, penso que devemos tomar essas últimas como expressão da verdadeira natureza da pessoa.

Não é possível confiarmos em pessoas que mudam de opinião com a mesma velocidade com que mudamos de roupa. É evidente que todos nós, ao longo dos anos, atualizamos nossos pontos de vista. Porém, acreditar em certos conceitos num dia – na frente de certas pessoas – e defender conceitos opostos no outro – diante de outras pessoas – significa que não se tem opinião firme sobre nada e que se quer apenas estar de bem com todo mundo. Amar uma pessoa assim é, do ponto de vista da autopreservação, uma temeridade.

A capacidade de confiar depende também de como funciona o mundo interior daquele que ama e não apenas da forma de ser e de agir do amado.

Não são raras as pessoas que não conseguem desenvolver a sensação de confiança em virtude de uma autoestima muito baixa. Desconfiam da capacidade que têm de despertar e conservar o amor da outra pessoa; se sentem inseguras, acham que a qualquer momento podem ser trocadas por criaturas mais atraentes e ricas de encantos. E, o que é mais grave, se sentem assim mesmo quando recebem sinais constantes, coerentes e persistentes de lealdade por parte da pessoa amada. Nesses casos, não há o que essa criatura possa fazer para atenuar o desconforto daquelas, cuja única saída é um sério mergulho interior em busca de resgatar a autoestima e a autoconfiança perdidas em algum lugar do passado.

Finalmente, para uma pessoa desenvolver a capacidade de confiar é necessário que ela seja uma criatura confiável.

Costumamos avaliar as outras pessoas tomando por base nossa própria maneira de ser. Se nos sabemos mentirosos, capazes de deslealdade e de desrespeito aos outros, como ter certeza de que as outras pessoas não farão o mesmo conosco?

Só aquele que tem firmeza interior, que tem confiança em si mesmo no sentido de respeitar as regras de conduta nas quais acredita, pode imaginar que existam pessoas em condições de agir da mesma forma.

Se a felicidade sentimental depende do estabelecimento da confiança recíproca, ela será, pois, um privilégio das pessoas íntegras e de caráter.
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VOCÊ É TUDO QUE PODERIA SER? – Patrícia Saint-Clair

Hoje, conversando com meus botões, me veio o seguinte: a vida é muito mais o que acontece dentro da gente do que o que acontece fora.

A nossa vida não é o que os outros veem de fora. Mas como nós a vemos de dentro de nós. Sempre me chamam a atenção os casos de homicídio seguido de suicídio em que pessoas que conheciam o autor dizem que nem suspeitavam do que acontecia com ele.

A dor psíquica nem sempre se vê de fora. Aliás, visto de fora, dá pra errar feio. Quantas vezes o cenário é maravilhoso, você pode estar em um lugar paradisíaco, mas visto de dentro, nada disso é sequer notado. Por isso fico vendo com certo enfado tantas frases de autoajuda tão em moda nas redes da vida, nada contra. Muitas são muito bacanas, mesmo! Mas me soam como se nossas questões, aquelas que mais nos afligem, fossem por falta de informação sobre como nos comportar ou falta de força de vontade nossa.

Será que a gente tem tanto poder assim sobre como nos comportamos? Sobre como vemos o mundo e as coisas que nos acontecem? Nosso cérebro e nossa mente parecem que têm vontade própria e não a NOSSA vontade.

Principalmente quando se tratam das questões que nos são mais difíceis. Então parece que não adianta aprender a teoria, porque quando nos vemos na situação de fato, não conseguimos aplicá-la. Você já sentiu isso? Quantas vezes o discurso é perfeito, mas a reação é outra. Por quê? Porque tudo o que nos acontece, depende do nosso olhar, da nossa lente. De como nos acostumamos a enxergar o mundo. As situações que vivemos na primeira infância, principalmente, e também ao longo da maturação do nosso sistema nervoso central, de como nosso cérebro foi se configurando, moldam esse nosso olhar. As situações boas e ruins que nos aconteceram ficam impregnadas na nossa lente. Na forma subjetiva como vemos e vivenciamos o mundo. E o temperamento com o qual a gente nasce também influencia a nossa forma de reagir ao que nos acontece, desde sempre, desde que nascemos. E o que a gente traz de gerações anteriores à nossa? Aquela cultura familiar, as crenças que nos são passadas, até de forma subliminar . Fora outras formas de transmissão transgeracional, hoje estudadas, até pelo DNA.

É uma soma de fatores que intriga até hoje a ciência, mas que, sem dúvida, nos constituem.

Não que a gente não tenha nenhum poder sobre isso, absolutamente. Mas conhecer de que somos feitos, o que nos constitui e o que nos limita, é fundamental. E a partir daí, sim, fazer as escolhas possíveis. Pensar o que você realmente quer na sua vida. O que você realmente gostaria de ser e tudo o que você poderia ser. Ou pelo menos, não andar a esmo, mas andar nessa direção. Porque enquanto estamos vivendo estamos fazendo essas duas coisas sem parar, buscando o querer e o ser. Nunca termina. E a terapia é uma das formas de resolver essa equação. Sempre repito que foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Por isso, recomendo.

Patrícia Saint-Clair - Psicóloga clínica com especialização em Análise Reichiana, EMDR e Neuropsicologia.
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RESILIÊNCIA: QUANDO A ADVERSIDADE ME TORNA MAIS FORTE.

A resiliência é definida como a capacidade de enfrentar uma situação adversa e sair reforçado dessa situação. É a base para que utilizemos os problemas que surgem como um aprendizado que nos ajuda a melhorar. A resiliência é colocada à prova em situações prolongadas de estresse ou sofrimento, como pode ser a perda inesperada de um ente querido, sobreviver a uma catástrofe natural, maus-tratos na infância, etc.

Na outra extremidade do conceito de resiliência pode estar o desenvolvimento de um transtorno de estresse pós-traumático. Na vivência de um episódio traumático, cada indivíduo tem diferentes formas de enfrentar o ocorrido. Além disso, cada um pode avaliar de forma diferente o mesmo fato.

Segundo D’Alessio, a resiliência emocional englobaria o conjunto dos traços da personalidade e os mecanismos cognitivos desenvolvidos por um indivíduo que lhe conferem proteção diante de situações adversas, impedindo o desenvolvimento de um transtorno mental.

A resiliência a partir do ponto de vista neurobiológico

O cérebro é a central do sistema biológico responsável pela resiliência e regula os mecanismos neurobiológicos, psicológicos e cognitivos do indivíduo vinculados com a resposta ao estresse. O funcionamento do cérebro é dinâmico e pode modificar sua estrutura em função das necessidades percebidas graças à neuroplasticidade.

A recuperação da neurogênese no giro denteado juntamente com a remoção dendrítica do hipocampo são as principais alterações estruturais associadas com a resiliência e que podem ser alteradas durante o estresse prolongado. Os fatores que fazem com que cada indivíduo reaja de forma diferente a um mesmo estímulo potencialmente estressante têm natureza distinta: eles podem ser genéticos, circunstanciais, relacionais, etc.

Nos indivíduos resilientes, as variáveis constitucionais, biológicas e genéticas interagem com as variáveis ambientais e as condutas aprendidas para resolver determinadas situações adversas. Eles fazem isso evitando ou prevenindo um transtorno psiquiátrico. Assim, não é possível falar de uma única variável que faz com que uma pessoa seja resiliente.

Fatores influentes

Existem inúmeros fatores que influenciam a resiliência e a forma de enfrentar as situações adversas. Por exemplo, foi observado que as situações de alto cuidado materno na infância a favorecem. As pessoas que receberam este cuidado são mais resistentes ao estresse, precisando de eventos altamente estressantes para que o organismo desencadeie a mesma resposta que em outro indivíduo.

O estresse é um mecanismo fisiológico necessário para que o nosso organismo funcione, para realizar atividades ou para responder a estímulos exteriores ameaçadores ou perigosos. Mas o estresse crônico pode propiciar alterações prejudiciais no cérebro por ter maiores níveis de hormônios do estresse (cortisona e adrenalina).

O aprendizado durante a infância é outro fator que pode influenciar. O desenvolvimento de estratégias de enfrentamento dos problemas a partir de uma idade precoce também pode favorecer o desenvolvimento da resiliência.

A adversidade como aprendizagem

A resiliência não oferece apenas uma saída para os traumas ou problemas que em outras pessoas podem favorecer o desenvolvimento de doenças ou problemas graves. Ela também se caracteriza por dar um reforço que emana da própria experiência negativa. De aceitar o que foi vivido e usar isso para seguir em frente, de forma que a experiência significativa não seja esquecida, mas transformada.

Viver uma experiência traumática sempre vai ter um impacto na nossa vida e uma implicação negativa, por se tratar de uma situação altamente estressante. O segredo é transformar essa dor em força para seguir em frente e ter uma vida plena. Muitas vítimas de catástrofes ou experiências semelhantes utilizam sua experiência para ajudar pessoas que vivem a mesma situação.

Aceitar que não podemos mudar o que ocorreu e que nem sempre temos o controle do que acontece conosco são estratégias que podem ajudar a superar diversas dificuldades que aparecerem. Não ter medo de pedir ajuda às pessoas mais próximas ou que passaram pelo mesmo e confiar nas nossas capacidades podem ser estratégias muito eficazes. Utilize-as!
Fonte: site A mente maravilhosa.
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SE DIVERTIR EM EXCESSO NÃO SIGNIFICA SER FELIZ – Edith Casal

A discussão sobre o conceito do que é ser feliz ou não pode ser interminável. A felicidade é um conceito abstrato e é difícil discutir sobre o assunto sem cair em um “beco sem saída”. A diversão, no entanto, é muito mais fácil de entender, pelo menos aparentemente: diversão é tudo aquilo que quebra a rotina e lhe dá satisfação.

A má notícia é que ser feliz e se divertir não são sinônimos. Alguém pode se divertir e não ser tão feliz. O contrário também pode acontecer: a pessoa não realiza muitas atividades divertidas, mas é feliz.

“A minha felicidade consiste em apreciar o que tenho e não desejar em excesso o que não tenho”.
-León Tolstoi –

Mas, o que é tudo isso? É simplesmente uma introdução para chegar a um ponto que deve ser motivo de reflexão: no mundo atual, a diversão tornou-se praticamente uma obrigação. Os infelizes só são bem-vindos nas igrejas e em clínicas psicológicas. Por esta razão, a diversão em excesso pode ser uma forma de encobrir uma grande infelicidade.

A obrigação de se divertir para parecer feliz

Alguns a chamam de “sociedade da Coca-Cola”. Você se lembra do que um dos primeiros slogans dessa empresa pedia? “Divirta-se!”, dizia. E mostrava pessoas sorrindo e vivendo felizes”, ou seja, rodeados por muitos amigos, viajando, se aventurando, comendo comidas deliciosas ou parecendo um “casal de revista”.

Nas últimas décadas, muitas pessoas não pararam de seguir essa regra. Uma das palavras mais assustadoras no mundo de hoje é o “tédio”. E presume-se que o oposto do tédio seja o dinamismo em excesso, muitos “finais de semana” divertidos. Muitas pessoas dizem: “O que eu mais gosto nele é que me faz rir” ou “O que eu mais gosto é que ela não leva as coisas tão a sério”.

Supõe-se que para ser feliz é necessário ser sorridente e parecer com as pessoas dos comerciais do Coca-Cola ou de algum creme dental. Expressões que não são sorrisos, são “cara feia”. Se você tem alguma dificuldade, sempre aparece alguém que quer ajudá-lo, convidando para uma festa ou aconselhando a introduzir mais diversão na sua vida.

Diversão e culpa

A obrigação de se divertir é tão forte que, por vezes, acabamos nos sentindo culpados quando pensamos que não estamos desfrutando o suficiente, ou que não temos as ferramentas emocionais para aproveitar “como Deus manda”.

A diversão, o momento de festa, aparece na história da humanidade como algo sagrado. Cada cultura tem reservados momentos especiais para interromper a vida diária e compartilhar um tempo com a comunidade. Representavam momentos muito emocionantes porque eles supostamente compartilhavam a alegria, expressões artísticas e um encontro afetivo com os outros.

A eterna festa do mundo atual, no entanto, está se tornando cada vez mais ligada a fins comerciais programados. Em muitos casos, tem a sua origem no tédio e não na intenção de celebrar. Mas o pior é que, quando ela se torna uma prática contínua, também se torna parte de uma rotina, que tira seu encanto e a diversão.

Divertir-se não é sinônimo de ser feliz

Houve um tempo em que a diversão e a satisfação eram vistas como inimigas da virtude. O sexo foi demonizado e visto como uma área em que os seres humanos poderiam começar um processo para a decadência. O prazer era algo para pessoas pouco evoluídas, irracionais, e por isso se entregavam à satisfação de seus instintos.

Graças às contribuições de muitas disciplinas, incluindo a psicologia, foi compreendida e difundida a ideia de que, ao contrário do que a maioria pensava, o prazer, a satisfação e a diversão eram componentes legítimos de uma boa saúde mental; que a repressão do desejo era algo negativo e poderia aumentar significativamente as neuroses das pessoas.

Atualmente, parece que a ideia que deve ser divulgada é exatamente o contrário: nem tudo pode ser desfrutado e as frustrações e as carências também desempenham um papel importante no desenvolvimento e crescimento emocional. O que é demonizado hoje em dia é tudo aquilo que não implica diversão ou prazer. O divertimento não exclui ou responde as questões sobre o sentido da nossa existência; o fato de nos divertirmos não significa termos resolvido o enigma da felicidade pessoal.
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POR QUE DÓI TANTO FICAR LONGE DE QUEM AMAMOS? - Erica Westly

Ficar longe da pessoa amada incomoda. Quando a saudade é muito grande sentimos como se faltasse algo em nós. Quem já passou por isso sabe que a angústia causada pela distância do objeto de amor e desejo pode levar ao aumento da ansiedade, desencadear perturbações do sono e, em casos mais graves, deflagrar a depressão. Essas reações intrigaram cientistas que estão desenvolvendo pesquisas para identificar os mecanismos neuroquímicos por trás desses efeitos psicológicos. Um estudo recente trabalhou com arganazes-do-campo, roedores corpulentos de cauda curta, que foram separados de suas parceiras por quatro dias.

Durante esse período, os animais exibiram comportamento semelhante à depressão e aumento da corticosterona, o equivalente, nesses animais, ao cortisol, o hormônio do stress em humanos. Machos que foram separados de seus irmãos não mostraram quaisquer desses sintomas, sugerindo que a resposta era relacionada, especificamente, à separação dos parceiros sexuais – e não a situações de isolamento social.
Quando receberam uma droga que bloqueou a liberação da corticosterona, os roedores pararam de exibir o comportamento depressivo pós-separação, confirmando que os hormônios estavam na raiz do problema.

Os efeitos do afastamento dos parceiros lembram, em alguns aspectos, a abstinência de drogas. “Mesmo em um curto prazo, a separação deflagra um estado aversivo ao meio, que faz com que os arganazes-do-campo procurem seus parceiros para não perder o vínculo”, diz o neurocientista comportamental Larry Young, do Centro de Pesquisas Nacionais em Primatas da Universidade de Emory e co-autor do estudo.

Outras pesquisas mostram que animais monogâmicos, que coabitam e se reproduzem, têm níveis aumentados de oxitocina, vasopressina e dopamina – hormônios que estimulam as ligações emocionais – em áreas do cérebro associadas à recompensa.

Em um experimento com separação de casais humanos por um período de 4 a 7 dias, a psicóloga social Lisa Diamond, da Universidade de Utah, observou sintomas leves de abstinência, como irritabilidade e perturbações do sono, aumento no nível de cortisol. Os voluntários que relataram maior ansiedade apresentaram picos nos níveis de cortisol. Mesmo os que apresentaram baixos índices de stress tiveram, em algum grau, níveis mais altos de cortisol e desconforto físico no período de afastamento, em comparação a quando estavam com seus pares.

Esses resultados, assim como os encontrados nos estudos de Young, indicam uma ligação específica entre separação e aumento do cortisol. Para pesquisadores, isso significa que, no futuro, podem ser desenvolvidas drogas que bloqueiem esse hormônio e ajudem as pessoas a se desligar de um parceiro.

Estudos mostram que o laço entre pares evolui com base na ligação entre pais e filhos e a separação nos remete a sentimentos antigos de rejeição, vividos nos primórdios da infância. Embora a maioria dos adultos não se recorde, quando as figuras parentais (que eram nosso universo) se afastavam e surgia a possibilidade de perdê-las, sobrevinha uma angústia extrema, só aplacada com o reencontro – o que pode explicar porque sentimos as conexões atuais de forma tão intensa. As mesmas substâncias neuroquímicas – oxitocina, vasopressina e dopamina – têm sido associadas a ambos os relacionamentos.

“As relações românticas adultas e os relacionamentos entre pais e filhos são fundamentalmente diferentes, mas ambas apresentam a mesma proposta funcional: criar um direcionamento psicológico para o outro, querer cuidar de alguém e resistir a separação”, explica Lisa Diamond.

Seus futuros estudos sobre ligações românticas, assim como os de Young, devem focar o desenvolvimento de tratamentos para o sofrimento associado à separação do parceiro ou a perda, bem como os transtornos que envolvem déficits sociais, como esquizofrenia e autismo.
Tradução Lilian Buzzetto
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NARCISISMO, QUANDO É DOENÇA? - Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

Apesar de poder ser patológico, o narcisismo está relacionado 
a saudáveis características de liderança e iniciativa.

Não é de hoje que o narcisismo tem má reputação. A depreciação dessa característica remonta pelo menos à antiga mitologia grega. Uma das narrativas desse velho mundo conta que o belo caçador Narciso (que, sem dúvida, ficaria bem satisfeito com sua atual fama) observou seu próprio reflexo na água e se apaixonou profundamente. O rapaz ficou tão impressionado com a imagem de si mesmo que morreu olhando para ela. Para a psicanálise, trata-se de um aspecto fundamental para a constituição do sujeito. Um tanto de amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância. A ilusão de que o mundo gira ao nosso redor é decisiva durante a infância, mas para o desenvolvimento saudável é necessário que se dissipe, conforme enfrentamos frustrações e descobrimos que não ser o centro do universo tem suas vantagens. Afinal, ser “tudo” para alguém (como acreditamos, ainda bem pequenos, ser para nossa mãe) é um fardo pesado demais para qualquer um. Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida almejando o modelo inatingível de perfeição.

É compreensível que, de forma exacerbada, a característica seja associada à patologia – embora na última versão do Manual diagnóstico e estatístico de transtorno mentais, o DSM-5, lançada recentemente, o narcisismo tenha deixado a categoria de “distúrbio”. Alguns críticos dessa versão do manual sugerem que, apesar dos evidentes prejuízos que uma atitude marcada pelo narcisismo possa trazer, não interessa à poderosa indústria farmacêutica ressaltar essa questão, já que não há indicação de “remédio” para seu tratamento e, ao mesmo tempo, nossa sociedade incentiva todas as formas de autogratificação, ainda que isso não traga verdadeiro bem-estar.

Na edição anterior do DSM, o transtorno de personalidade narcisista era definido como sentimento excessivo de autoimportância, fantasias irreais de sucesso e intensa inveja, muitas vezes disfarçada, das realizações alheias.
Pessoas com o distúrbio também tendem a acreditar que merecem tratamento especial ou que foram injustiçadas quando não obtêm tudo aquilo que desejam. Há casos em que enfrentar o trânsito congestionado ou uma fila atrás de alguém que consideram menos importante, por exemplo, pode causar enorme mau humor, como se fosse uma agressão ser exposto a esse tipo de desconforto.

De fato, a compreensão contemporânea do narcisismo, mesmo entre leigos, raramente é amena. Faça um teste: digite em sites de busca as palavras “narcisistas são”. Certamente aparecerão termos pejorativos, como “egoístas”, “imaturos”, “superficiais” e “egoístas” para completar a frase. Apesar de essas características provavelmente serem indesejáveis, recentemente o psicólogo Jean M. Twenge e seus colegas da Universidade de San Diego apontaram que o “grau” de narcisismo de universitários americanos subiu vertiginosamente nas últimas décadas. Faz sentido se pensarmos que nossa cultura incentiva o individualismo e o culto ao “eu” e ao “meu”.

É certo que pelo menos em parte a má fama do narcisismo seja merecida. No entanto, alguns pesquisadores apontam nuances dessa característica. Embora em excesso esse aspecto torne o convívio difícil, quando bem dosados, o amor-próprio e a autoestima são fundamentais para a busca de experiências saudáveis e a validação delas, o cuidado consigo mesmo e até para o exercício de atividades que exijam iniciativa, liderança e criatividade.

TODO MUNDO É UM POUCO
Alguns psicólogos conceituam o narcisismo como um egocentrismo exagerado. É evidente que todos podemos ser mais ou menos autofocados em algumas situações, mas para a pessoa extremamente voltada para si própria torna-se difícil colocar-se no lugar do outro de forma empática. Com isso, as trocas afetivas ficam cada vez mais escassas, concorrendo para o empobrecimento do mundo subjetivo.

Na tentativa de medir o “grau” de narcisismo, pesquisadores utilizam em laboratório o Inventário de Personalidade Narcisista. Ao responder a esse questionário, os participantes devem escolher uma entre duas declarações, como “Prefiro me misturar com a multidão” ou “Gosto de ser o centro das atenções”. Ou optar entre: “Não sou melhor ou pior que a maioria das pessoas” e “Acho que sou uma pessoa especial”. A pontuação revela a intensidade dos traços narcísicos na personalidade.

Alguns itens refletem a constatação grega: narcisistas são obcecados com a própria aparência. O psicólogo Simine Vazire, coordenador de um grupo de pesquisa na Universidade de Washington, firma que essas pessoas tendem a usar roupas caras, ainda que básicas, e gastar bastante tempo pensando em si mesmas, além de sentir intenso prazer ao falar de si mesmas, focando nos mais variados aspectos da própria vida. E isso se mostra até na escolha das palavras: em 1988, os psicólogos Robert Raskin, da Universidade da Califórnia, Berkeley, e Robert Shaw, da Universidade Yale, descobriram por meio de monólogos gravados que estudantes considerados narcisistas utilizaram significativamente mais vezes a palavra “eu” e menos o termo “nós”, em comparação com outros voluntários.

Cada vez mais, as evidências sugerem, no entanto, que – reconhecido ou não pela “bíblia” da psiquiatria – o transtorno de personalidade narcisista resulta de uma mistura de elementos. O que salta aos olhos costuma ser a autossuficiência e a certeza do próprio valor, mas o que sustenta essa atitude é, na verdade, uma enorme fragilidade emocional, resultante da dolorosa marca psíquica de não ter sido suficientemente amado e valorizado na infância. É possível pensar que esse investimento exacerbado em si mesmo e no próprio universo, e mesmo o egoísmo, tenha a função de compensar a baixa autoestima.

A forma como a personalidade narcísica se apresenta também varia. Líderes terríveis como Benito Mussolini, Adolf Hitler e Saddam Hussein, venerados por seus seguidores, poderiam ser considerados narcisistas “pretensiosos”, extravagantes e prepotentes. Outro tipo de narcisista, menos óbvio, mas não menos devotado à própria imagem, é definido por cientistas como “vulnerável”. Em geral, são pessoas frágeis e reservadas, mas muito voltadas apenas aos próprios interesses, como alguns dos (apenas aparentemente) modestos personagens retratados por Woody Allen em seus filmes.

ESPELHO DE DUAS FACES
Não raro, pessoas com traços narcísicos marcantes se colocam em situações que prejudicam a si próprias. Os resultados de um estudo desenvolvido pelo psicólogo W. Keith Campbell e seus colegas da Universidade da Geórgia mostraram que o narcisismo está vinculado à tomada confiante de decisões, embora isso muitas vezes ocorra de forma precipitada – como ao apostar em projetos pessoais de maneira imprudente. Em outro trabalho, os pesquisadores relacionam a característica à infidelidade e à impulsividade. Pessoas muito voltadas para si mesmas também podem ser propensas à agressão, especialmente após receberem insultos. Um estudo conduzido pelos psicólogos Brad J. Bushman, da Universidade Estadual de Ohio e Roy F. Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, indicou que estudantes universitários considerados narcisistas têm grande probabilidade de agir de forma vingativa e intempestiva contra quem os ofendeu. Os cientistas pediram a um participante (na verdade, um pesquisador disfarçado) que criticasse um texto escrito pelos alunos, o que foi recebido por eles como uma ofensa. Os pesquisadores entenderam que a crítica negativa foi encarada pelos voluntários como uma ameaça ao próprio ego, não como se fosse um trabalho desvalorizado, mas como se eles mesmos tivessem sido profundamente atacados.

Já o psicólogo Paul Nestor, professor da Universidade de Massachusetts, Boston, ressaltou que pessoas com características intensas do transtorno de personalidade narcisista têm forte risco de passar por situações de violência e desenvolver também o transtorno de personalidade antissocial, relacionado a atos irresponsáveis e, em casos extremos, à prática criminosa. Comportamentos autodestrutivos também podem decorrer do desespero de pessoas narcisistas que deixam de ter seu potencial reconhecido pelos outros. Em um estudo de 2009, uma equipe liderada pelo psicólogo Aaron L. Pincus, da Universidade do Estado da Pensilvânia, relacionou características do narcisismo patológico com tentativas de suicídio. Dados de 2011 apontam que egocêntricos vulneráveis (não os pretensiosos) correm mais riscos de machucar a si mesmos, às vezes de maneira inconsciente, ter pensamentos suicidas e até se automutilar – o que pareceria contraditório para alguém que se valoriza tanto, se na base desses sintomas não estivesse uma enorme fragilidade psíquica.

Por outro lado, uma pesquisa de 2009 conduzida pela psicóloga Amy B. Brunell, da Universidade do Estado de Ohio, em Newark, apontou que pessoas com característica narcísica rapidamente emergem como líderes em discussões de grupo e nas redes sociais, apresentando maior probabilidade de alcançar posições de destaque, por sua atitude carismática, propostas eficazes e criativas. O problema nesse caso, é que, dependendo do grupo, líderes excessivamente voltados para si próprios podem inibir seguidores potenciais – e nem mesmo notar que provocam essa reação. O psicólogo Timothy A. Judge e seus colaboradores da Universidade da Flórida demonstraram que estudantes de um programa de gestão considerados narcisistas tendiam a se perceber como ótimos líderes, embora outras pessoas não os julgassem tão bem.

As vantagens de ser voltado aos próprios interesses, porém, se estendem além da liderança. Em um estudo publicado em 2011, o psicólogo Peter D. Harms e seus colegas da Universidade de Nebraska-Lincoln mostraram que pessoas consideradas narcisistas costumam se destacar em entrevistas de emprego simuladas, geralmente devido à habilidade de se autopromover. 

Esses resultados estão de acordo com outra pesquisa feita em 2006 por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia. Os cientistas apontaram elevado grau de narcisismo em celebridades, comparadas com a população em geral. Considerar esses resultados pode nos levar a pensar que, apesar de a admirável capacidade de autopromoção de narcisistas pretensiosos possa ser incômoda para muitos que os rodeiam, é possível aprender com essa característica. Talvez, sustentar-se no centro do universo realmente seja cansativo demais, mas manter-se no controle da própria vida, sem a obrigação de brilhar em tempo integral, pode trazer muita satisfação.
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